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domingo, 5 de dezembro de 2010

A espera

A espera tem a foice da morte na mão
Corta sem piedade, a fruta que não chega a madura
Isola do mundo a alma que pasma de se ver nua
Rouba o tesouro que nos promete a razão

Move o pêndulo no peito, sem saber que horas são
Sulca a testa do adulto e regozija a criança
Aduba a imaginação e seca a lembrança
Agita as águas cruzadas, onde se afoga a respiração

Quem vive a arte, nela, chama a intuição.
No vertigem da alma, quando o prazer almeja,
Vem como um fio de água, que floresce o desejo,
E as sementes do futuro, caiem no chão

Ela é o divino oscilar da anca, que leva o cântaro
E promete saciar o espírito, da sede e do feitiço.
Assim, mesmo que a espera não seja nada de isso,
Deixar de esperar, é rejeitar da vida o seu encanto

domingo, 31 de outubro de 2010

Olhos fechados num coração aberto

Fecha os olhos, e vê o estremecer da vida nas pétalas da existência.
Deixa-os cobertos, neste mundo aberto, em certezas que nada tem fim.
Descai a véu da alma sobre os olhos da paz, no filtrar da penumbra do viver.
E quando elevares o coração, baixa os olhos para o feliz encontro do amor e do amante.
Lembre-te as vezes que fechastes os olhos para acordar do sonho da mentira,
e com os olhos reluzentes de ternura, bebeste o cálix da alegria no repouso do coração.
No conchego das pálpebras, protege o teu brilhante olhar embriagado de amor.
Infinito, é o espaço que encontras por detrás do teu cismar, e infinita é a tua visão.
É cego o teu olhar amante, não por que vê tudo escuro, mas porque vê que tudo é amor.
Inclina a alma, antes de abrir os olhos, para que a alma do mundo te possa envolver.
A luz do espírito iluminara o que vêm os olhos da razão;
Sempre que actuares pela alma e abrires o coração.

sábado, 2 de outubro de 2010

Filhotes

A minha carne, sorrindo, fica à espera do filósofo para que venha provar que estes filhos não lhe pertencem.
Reconheço o meu sangue quando ferve nas veias da impaciência e da brincadeira.
São um espelho quebrado que reflicta a luz das mil facetas do meu passado.
São a incorporação dos meus sonhos no abraço dum novo futuro.
São o sobressalto de quem acorda da ilusão que tinha da “educação”.
São a suavidade, leveza e pureza do anjo que transmite as rudes e imparciais ensinamentos da vida.
Em vós palpita um:
 Coração que ainda não conhece o aperto da armadura do guerreiro.
 Coração que brilha longe das cicatrizes e golpes do combate à sobrevivência.
 Coração delicado, como as mais tenras pétalas das flores do jardim do meu esquecimento.
 Coração de um universo que se expande, se dissolve e se recria a cada momento.
 Coração tão ínfimo mas tão profundo que atrai a luz para melhor irradiar o seu próprio mundo.
Filhotes, à espera de ser para vós um amigo, deixam-me por um pouco, me sentir... pai.

sábado, 28 de agosto de 2010

Do rebanho ao pastor

Sou parte do rebanho, e sigo, cego, o pastor
Ele leva-me para ali, e como as pegadas do seu destino
Quando apita, respondo bramindo no mesmo clamor
Cabeça pesada e olhos fitos na terra, me afundo num remoinho

Apetece-me ser chibo e marrar o meu caminho,
Mas, ele diz-me que, arisco de me perder em áridos desertos
Marro nas dúvidas, e bebo as suas verdades, caladinho
Sou o relato da imagem, que ele pintou nos meus desejos secretos.

Adormeci um dia, e sonhei ser pastor.
Puxava um gado, na cegueira de me crer livre.
No abrir do passo, fugia do meu torpor;
Tinha no umbigo, palavras digeridas dum livro

Demostrava um saber, que nunca tinha aprendido.
O orgulho ensinava-me a fingir a humildade;
Para me fazer respeitar, falava de caridade,
Mas o gado comia da terra, e eu comia do gado

Quando acordei, vim que o espírito pode levar à mentira
Que me vá pelas pegadas dos outros ou pelas minhas
Encontro no rasto da vida, a memória repentina
De que, nem eu nem o outro, mas só o tudo ou o nada é que pode libertar

sábado, 3 de julho de 2010

Ver ou não ver? Aqui sou a questão

Vim, na minha negação de ver,
O plácido visto, a olhar para mim
Perdi-me neste espaço sem saber
De que lado se encontrava a razão

Tinha a alma esticada ao infinito
Origem comum do visto e do vidente,
Pela fome e sede do coração
Encontrei uma nova definição:

Não há isolamento no despontar da revelação
E fico com saudades do bem que me trás o mal
Lembro-me dos que rejeitam o mal por avidez do bem
Sem se saber projectados nas chamas dos desejos condenados

sábado, 29 de maio de 2010

O poeta

O poeta, extrai do clarão da luz que contempla,
o brilho da consciência ilimitada,
e da quinta essência da mensagem que ficou gravada,
produz, na alquimia do seu coração,
uma mensagem, que projecta na testa cega da manada,
usando a sombra das palavras e a razão.

Ele entrega o seu coração crucificado à dor,
para com ela melhor medir o valor.
Oferece a alegria aos deuses da graça,
na esperança que deixem o veneno cair da taça
livrando os lábios do excessivo fervor,
e refrescar, no seio do homem, o florir do amor.

Não há poesia que canta o que vive o poeta...
mas no silêncio, os seus olhos encantam.
Ele é o instrumento que faz soar a poesia
mas são poucos os que sabem ouvir a sinfonia.
O mundo, cego, pertence aos que mandam,
mas, ele pinta a todos, da estrela da mão que contem a paleta

Tanto vive, que se esquece de ser homem.
Tanto sofre, pelo homem que se esquece de viver
Aguenta nas costas o peso da blasfema
Vai seguro, a alma recta no incandescer,
Vivendo na cidade como numa arena,
entre tigres e leões que se querem comer

domingo, 2 de maio de 2010

Não me conformo

Doce e suave sentimento que procuro encontrar
Quando me assalta o dever de ter que lutar
Mas logo que o coração diz que não
No meu rosto se espelha a tenção.

A porta não fica fechada
Nem eu fico frente a fachada
Pois entro na meditação
Que é vício da minha razão

Na sabedoria que me tornar irracional
Luto pelo universal e zombo do nacional
Vivo à margem do conformismo
Na utopia de me livrar do egoísmo

Consumo, consumo num consumismo de aquém
Esfarrapando a alma no arame das terras do além
Entro sem aviso no interdito paraíso
E partilho o fruto do proibido juízo

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Egocentrismo

Quando te contemplo ò flor
gozo do prazer de te ver radiante
recolho o suco do teu ensinamento
e fico dono da ideia de ser senhor

Quando o meu pé se desequilibra no seixo
me revolto contra o azar do bazar do mundo
vejo culpados em tudo o que mexe
sou a vitima do alheio e sinto-me vagabundo

Falo dos outros mostrando o que vive em mim
e estendendo no chão o ego e a sua tela
e quem vê reluzir os sinais impressos se ri
até vê-la espelho ao inclinar-se sobre ela

quarta-feira, 3 de março de 2010

Amigos e alunos

Como não poderia eu agradecer da vossa confiança?
No meu papel de amigo, desculpem as minhas faltas de atenção.
No meu papel de canal, perdoem os meus delírios.
No meu papel de estrangeiro, desculpem se me sinto demasiado Português.
E se, no meu papel de propagador de liberdade, os meus pés se prendem nas redes do tempo, é para reforçar as minhas pernas à espera da hora em que poderemos caminhar juntos sobre as instáveis pedras do caminho do amor.
Como nos muros da cidade, tantos papeis colados sobre os nossos rostos. Será que um dia poderemos nos ver tal como somos?

domingo, 31 de janeiro de 2010

A paz

A paz nasce no coração
E acaba na mão
Só tem sentido
Quando ajuda o irmão

Rebenta a semente
À procura de luz
E incansavelmente
O sol seduz

Só se vive a paz
Quando há encontro na cruz
No centro onde jaz
Desejo e amor que nos conduz

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Criar

A revolta é o fermento da arte
Ela atiça o desejo no ventre
Não há criação sem virilidade
A satisfação só se encontra
Quando já não há dualidade

Assim se despe o poeta
Vive o sentir do contacto
A sua alma é um farrapo
Rasgado pela mão do vento
No leito da linguagem do campo