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sábado, 1 de novembro de 2008

Comunhão

A linguagem do espírito não se comunica como as ideias de um livro ou pela sonoridade de umas belas palavras. Para que o espírito possa vir a ser aflorado pelo coração dos seres, ele tem que despir-se do intenso esplendor da sua luz; tem que vestir a áspera roupa da terra antes de aproximar-se de quem ainda vive à sombra das dúvidas; tem que usar a coroa de espinho da consciência limitada e oferecer as suas costas à brusca mão da ignorância que engorda no prazer do flagelo.
Guiado por um profundo sentimento de compaixão,
o espírito reúne todas as suas forças, e, pés nus,
lentamente, arroja sobre as pedras do caminho a sua cruz
- projecção da sua ligação ao absoluto e que lhe fere o peito
no sitio onde se purifica o fogo que consume a ganância do homem.
Por fim, aqui está ele crucificado, o peito exposto a todos
E, pelo sacrifício do seu eu, entrega a mais elevada da sabedoria:
A liberdade absoluta existe, mesmo dentro das realidades mais obscuras do mundo terrestre.

domingo, 6 de julho de 2008

A noite

Nas noites do meu quintal,
Despertam pequenos roedores que se entregam ao sabor das minhas mais tenras emoções.
É na morte do dia que nasce a vida da noite.
E a vida da noite dorme nas pregas do fato do meu dia.
É ela que afunda as rugas do rosto do dia.
Os mistérios da noite escondem-se do ardor do sol na sombra dos galhos que estalam debaixo dos pés.
A sombra do dia revela-se sempre por trás de quem aceita virar-se ao sol.
Vejo-a passar no fundo do reflexo do meu olhar.
E a luz da sua prata lua, ilumina o vertente Norte do meu pensamento.
É noite! E do meu coração se vai o canto daquela minha outra vida.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um só passo fora do tempo

Mesmo que as minhas mãos deixassem de arrancar as ervas daninhas;
chegaria eu um dia à caricia da alma do vento?
Ainda que vigiasse as minhas palavras e moderasse a minha alimentação;
chegariam um dia os meus lábios à suavidade do beijo da luz do sol?
E se tencionasse retirar-me num mosteiro e que me preenchesse de orações,
chegaria eu um dia à pureza duma simples gota de orvalho?
Mesmo se me viesse a recordação de cada um dos meus passos,
chegaria eu um dia a polir o meu corpo e alcançar a transparência do ínfimo grão de areia?
Deixem-me arder de paixão, por que eu sei que este fogo que me ilumina é o mesmo que consome a criação.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A sinceridade

A sinceridade é ousar quebrar o reflexo ilusório da ideia que se tem de si próprio.
É expor o fruto do conhecimento a quem vive na fome.
É a capacidade de irradiar para as mais altas esferas da alma um pouco da dor de se sentir humano.
É não despir-se das imperfeições na hora do encontro.
A sinceridade pode não ser a verdade mas não deixa de ser o oposto da mentira.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

Testamento

Tu que aqui ficas fica bem, que eu me vou.
Se, tantos como os grãos de arreia da praia se foram, porque não aceitarei eu de partir?
Vivo na alegria de me deixar morrer.
E morro de amor, abraçado ao meu único bem: um pouco de luz de um dias de verão.
Deixo-te:
O calor da minha mão naquilo em que obstinadamente me agarrei.
A suavidade dos degraus da nossa escada, que desgastei nos meus altos e baixos
O sonho daquela paz que não consegui revelar a não ser no meu próprio ser.
O remorso de ter vivido num mundo que não se deixou amar.
O estremecer da mão do mendigo que se estende sobre as nossas riquezas.
O peso do seixo no fundo do meu coração.
O amargo da fruta do nosso entendimento.
O fundo do poço da esperança, na hora em que deixei de esperar.

sexta-feira, 14 de março de 2008

A vontade

Borboleta minha amiga
Assim voa vontade minha
Á busca da flor, seu alimento
Borboleta arrastada pelo vento
Sopro da vontade divina
Que me atira por outro caminho

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Coração, coração... escuto! Que tens tu para nos contar?

Leva-me para aqueles recantos, onde vagueia o sopro da minha alma, e, unindo-te à claridade que filtra pelas suaves pétalas da flore da vida, lá vais projectado para um espaço sem fim, viajando à velocidade da luz através dos jardins galácticos.
Que milagre é, que me permite, ao tocar na pedra do caminho sentir o seu canto acariciar o meu coração?
O teu silêncio vibra no meu peito como uma melodia na vida da sinfonia universal.
Quando és flor, eu não sou mais do que uma abelha à busca do teu néctar.
Quando eu sou néctar, abraces-me das tuas pétalas à espera que venham bater à porta do amor.
Quando tu e eu estamos unidos, a vida e a morte deixam de fazer sentido.
Conta-me a história daquele que por tanto lhe tem sido ensinado a rojar os pés no caminho, se esqueceu do seu mais íntimo, onde se estendem as terras de luz e se colhem os frutos da liberdade.
Recorda-te daquele que encontrou o autêntico convívio no isolamento duma simples cavidade do recanto do monte.
Mas sobre tudo, coração, não te esqueças de me lembrar que, qual que seja a luminosidade do teu céu, é para fora que esta luz está predestinada, para que o mundo que nos rodeia possa vir a reencontrar o seu autentico brilho.
30 de dezembro de 1998