sexta-feira, 3 de março de 2017

É hora de ponderar

Quem surpreende o surpreendido?
Será o mar da ilusão,
que numa onda diz – “conheço”?
Voz da vida,
breve grito,
que faz eco na nave
ancorada ao porto.

Abrem-se os livros do mundo
deixando, por entre as linhas,
escapar a torrente de tormentos
que os tingiram de saber.
Mas que fica
da digestão de uma
mera representação?

A visão penetrante
não conhece reflexão.
Entra no âmago do facto,
num cristalino sentimento
Inerente ao conhecimento.
Sem o reflexo da formulação,
o saber não tem princípio nem fim. 

O “eu”, sem história nem projecto,
é músico, instrumento e sinfonia;
é pintor, é a tela e a sua cor;
é conhecedor, conhecido e conhecimento. 

domingo, 29 de janeiro de 2017

Reprodução

Que decepção ver o sentimento posto na gráfica da poesia. Que desencanto ouvir cantar a poesia extraída das volúpias do coração. Toda a força está posta na reprodução. 

domingo, 1 de janeiro de 2017

Quem Paga?

Sentado num banco de um centro comercial, vejo o mundo em movimento rodar à volta da minha paz. Que força move a gente? “É vontade” – diz o filósofo. Mas eu vejo o desejo a manipular os fios da razão. O pensamento único surge de um desejo sem fundo – mar da consciência. Antes de ser pensada a vontade é emoção infiltrada no corpo por nervos e filamentos. Instinto colectivo modelado por quem manda no mundo. O homem, quanto mais quer, mais dá a quem quer. Tira-se do irmão que paga com o suor e tira-se da terra que a todos dá amor. Quanta miséria no ser cego pelo luxo.
Ruídos, vozes, música e luz, tudo ferve dentro do caldeirão da mesma confusão. A arte de saber mostrar não choca com o fato de ter que enganar. Tudo gira à volta da aparência e da substância, para quem a analisa, nela só vê ignorância. Como na caverna de Ali Baba, o brilho do ouro roubado suja a alma lavada. Quem Paga?

sábado, 3 de dezembro de 2016

Onde começa o interior e o exterior?

No acto de percepção, o mundo fenomenal entra pela nossa realidade subjectiva dentro, de tal modo, que aquilo que aparenta vir do exterior, não poderia manifestar-se no interior sem a memória orgânica proveniente da relação que tem tido com ele. Até mesmo a concepção puramente intelectual tem por substrato um contexto que não se encontra isolado do ambiente “interno” e “externo”, que nos serve de referência para manifestar a sua potência. 

sábado, 27 de agosto de 2016

Olhos

Tenho olhos que, quando abertos, vêm o mundo da aparência e quando fechados, vêm o fundo da realidade da substância. É isso que tento descrever usando o instrumento cortante da razão.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Metafísica

Se tudo é um, cada elemento acede ao todo
e cada unidade está em toda a parte.
Só podemos localizar um objecto
em função da posição de outro,
tirando o outro, o espaço reduz-se a nada.
O universo parece um jogo entre o espaço e o tempo.
Eu que vejo e toco, sou esse jogo que cria o mundo.
O passado, é a substância que move a mente,
e o futuro, a projecção da imaginação.
Tudo está em tudo quando não há
Passado, presente e futuro.

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Vão pensamento

O pensador, que usa o espelho errado,
Puxa sobre a terra um penoso arado.
Revolve a matéria como quem lavra
E semeia para colher o fruto da palavra.

A sua voz papagaia a filosofia
Por que tudo o que pensa e diz copia.
E quando a seta acerte na sabedoria,
É porque a alma do mundo a guia. 

Se a atenção fosse clara como a fonte,
Estaria fora e dentro ao mesmo tempo.
Mas a dualidade orgulhosa da personalidade
Deturpa a verdade imanente à realidade.

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...