domingo, 31 de março de 2013

Porque não queres?

Se quisesses escrever uma poesia,
para onde orientarias a tua atenção.
Se quisesses recolher a quinta-essência do aroma da flor.
Se quisesse dialogar com senhor vento,
Mago que detêm a memoria do tempo.
Se quisesses, com a mão, amparar criança;
Recolher o dedo para não receber a aliança
Se quisesses, por um pouco, nada querer,
Irias ver que só nesse vazio é que podes receber 

segunda-feira, 4 de março de 2013

Também conheço a dor

Entre o que medito e a vida que vivo
Há como uma mentira que eu não digo
Ela envolve toda a realidade do presente
E se alimenta do lixo do meu pensamento.
Que é ”ser feliz”? Pergunto ao espelho,
E o reflexo diz “há dor no mundo da gente vejo”.
Eu sou dessa gente que queria amor,
Mas sobre ele se sobrepõe o suor.
Trabalho para esquecer o sofrimento
Nasço, cresço, moro de isolamento.
Que vem do amor? Senão a dor.
Vulnerável é quem não sabe impor. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A lida da vida

A emoção que abrasa o meu coração
lembra-me que o corpo é um punho de cinza
e que viver é espalha-la pelo vento.
Passei o dia a lidar com matéria
sem tirar o espírito do éter.
O gesto feito com intenção
produz no espírito uma reação,
que esconde, no fruto que dá,
a semente de onde nasce o ato. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Que valores?

A opulência da riqueza?
Que miserável ilusão!
Disse o pobre na alteza
De quem pensa ter razão

Seja o cofre da ideia
Ou o cofre do cifrão
A mão que se encontra cheia
Não se abre pró irmão

O sentimento imaturo
Que não quer arroz
Vive na escravatura
E levanta a voz

Os olhos cegos postos
Naquilo que se desfaz
Não quer pagar impostos
Mas Viver não é capaz

sábado, 1 de dezembro de 2012

A meditação

A meditação é poesia sem tema
Um puro sentimento nascido do vácuo
Que se dispersa num mundo sem cena
Longe da definição que nos torna gago

Ela é a entrega de quem deixa fazer
Num movimento de potente fluidez
Onde a vida é o facto a acontecer
Que liberta o ser da avidez

Não há meditação sem coração
Nem consciência sem subconsciente
Sem núcleo para quê realização
Todo o elemento é instrumento

A existência faz, mas não realiza
O visível e o invisível, de todas as coisas
São as margens da ponte que eterniza
O gesto e o pensamento na substância da causa

Que realidade usa o meu ser para criar?
Sei que sou instrumento, mas na mão de quem?
Sondo o enigma com a capacidade de sonhar
Mas não será infantil imaginar que é alguém?

A consciência que é espaço aberto sobre a origem
Usa a nave do mental para alcançar o transcendental
E, quando emerge no eterno não dito, ela cinge
A verdade intemporal que faz da realização o ponto final 

domingo, 4 de novembro de 2012

Ecos de um ser

Não! Não estou liberto do sofrimento, nem das dores, e se ainda me sinto iluminado é pela pequena chama que incansavelmente se consume na mágoa do meu peito. Na claridade desta penumbra percebo a rosa da vida projetada no fundo da minha carne, e, bem que sensível as caricias das suas pétalas, sinto-me preso pelos seus espinhos.
Pela força do desespero, por vezes, surpreendo-me a pensar aos que nunca chegaram a conhecer a alta exaltação de quem se uniu ao sol, pois os olhos ao fixarem o chão, não perdem o caminho.
É hora de reconsiderar a visão que tenho da espiritualidade!
Apesar de constatar que é ela que predomina na minha mente “vagabunda” e nos meus atos “distantes”, sinto, que por detrás da luz da minha boa consciência, se estende a vasta sombra do ego. Que força nos leva a rasgarmo-nos ao meio, fazendo do nosso ser o agente separador do espírito e da matéria, as duas faces da grande unidade.


domingo, 7 de outubro de 2012

A liberdade da poesia

Com as grades da rima e do verso
Assim mesmo a poesia é mais livre
Do que a filosofia e o seu texto
Em que a verdade formulada agride.

Ela não receia a mentira,
Sabe que a verdade também se inventa
No ego de quem não toca a lira
E carrega como formiga a ideia da semente.

Tenho em mim as duas vertentes
E o jogo entre o sol e a sombra se inverte
No espaço e no tempo, os regentes
Da ideia e do sentimento que me aperta.

domingo, 9 de setembro de 2012

Pensamento


Seja a mente transparente
Quero ver de onde nasce o pensamento.
Parece vir do fundo da alma e trazer consigo um sentimento,
Única prenda que se pode oferece ao firmamento.
Ele deixa na folha branca as suas pegadas –  
Fotografias do passado em cores deslavadas.
Emerge de um mundo onde não há desgraças,
Onde a vida semeia flores e as colhes no seu regaço.
O caminho que percorre o meu pensamento
Atravessará os vales e montes do impermanente.  
Enquanto o pensamento for natural como o campo
Ficarei feliz e tudo me será dado sem eu pedir tanto,
Mas a moral é como um câncer que nos suga o juízo
Nascido da cidade onde o medo das leis é nosso inimigo.
Pensar sobre o pensamento é virar um espelho para outro
E ver a sucessão infinita das imagens perderem-se num ponto.
Pensar pode ser vício e o pensamento o seu sustento,
Refreá-lo é por a ferve o caldeirão do condicionamento.

sábado, 28 de julho de 2012

Amar


O amor, que nos faz divagar, torna a vida uma eterna viagem.
Ele, não tendo fim, nos abre os seus infinitos braços
e nos eleva para os céus de terras nunca exploradas.
Porque então deixar retrair o Coração
se todo ele fala de libertação!
As asas do peito não aguentam o peso dos anos,
mas a lembrança de quem amou dá força e coragem
para se lançar no espaço.
O maior desafio é amar o que se não gosta,
mas não nos podemos obrigar a amar,
nem programar o que pretendemos amar.
O amor autêntico nasce como a água da fonte do monte,
todo ele é abundância e dom. 

terça-feira, 3 de julho de 2012

Escreve enquanto é tempo


Escreve alma minha pela mão do corpo
Escreve enquanto é dia que vem a sombra da noite
O frio alento anunciar que daqui pouco
Será hora de dormir no sonho infinito da morte

Escrever sem destino para não atrair o que é certo
Escrever para dizer que criar é viver
E na obra realizada existir para sempre
No estremecer do coração que aprende a ler

Com o punho fechado guardo o segredo destino
Das linhas do futuro emaranhadas num passado
Em que o presente se apresenta tão repentino
Que no gozo do tempo me vejo pasmado 

domingo, 3 de junho de 2012

Porque são os minutos?


Quantas estações dura o segundo na vida de uma célula?
O tempo da vida humana não chega a segundo no corpo do universo;
Ver o tempo passar pelos olhos do permanente abala a consciência.
A roda que avança e fende o espaço no tempo tem o eixo imóvel,
O relógio que fora fatiado pela mão do homem e que nos alimenta de ilusão do tempo tem o quadrante imóvel e o eixo a rodar.
Será que o espaço imóvel é atravessado pelo tempo fugitivo?
Será o espaço é paz e o tempo é movimento?
Olhar para dentro é sair do tempo e abraçar a paz,
Abri-los para fora é confrontar-te com a hora
que aponta para cova para onde vás.

domingo, 4 de março de 2012

É fácil


É fácil ser forte
Quando se tem a sorte
De não ter de lutar
Brada o galo no ar

Viva é a ideia
No tecer da teia
Das relações relativas
E imagens pensativas

Conheço quem pouco sabe
Mas faz mais do que o frade.
No mosteiro do mundo
Ele realiza e fica mudo

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Mar

 Olhar meu perdido na quietude do horizonte.
Pelo infinito da tua extensão, nasce-me uma onda que me dá vida
Mal acordei que já cama da morte me abraça
Fundir-me na memória do tempo
Mesmo que eu não seja
Acompanho a violência da onda
Que rebenta na rocha.
Como o meu profundo desejo de viver.

domingo, 1 de janeiro de 2012

A herança que nos vem do mar


Quando brando, o mar é prosperidade
Estende a mão e dá tranquilidade
Mas quando raivoso afasta quem tem fome
As suas ondas são o vai-e-vem que nos consome

Quando o sofrimento se alimenta da alegria
Não há quem acredita na filosofia
Pois ele promete o sonho a quem precisa de alimento
A promessa é fermento dum pão que não enche o ventre

Mas não deixa o sonho de ter valor
Porque nem o homem nem o animal vivem sem amor
Não deves rejeitar o poeta por não ter nada na mão
A vida é curta e o que fica no fim é recordação

Como podes querer a continuidade
Se a vida nasce no mar da instabilidade
Rasga-se o coração entre o querer e o dever
A dor é a única constância na vida do ser

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

11 de Novembro


Mundo de pedra e de rocha,
Na agonia de quem se sente preso,
Da minha vontade te quebrei.
Sangra agora coração meu
Rasgado pelas tuas vivas arrestas
Sofrendo na triste alegria de viver 

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Na boa disposição da minha loucura


O escutar do vazio encheu-me com tanta bugiganga
que tive de arrumar o sótão da minha memória.
Dei um passo por cima do espaço sem tocar no tempo,
e rompi o véu da ignorância emergindo no eterno não-saber.
Duma risada humana, estremeceu o absoluto no receio de ser reconhecido,
e a vertigem da oscilação fez-me sentir
esfera que gira e roda dentro de uma outra esfera
que vira e volta numa similar esfera em rotação
à volta de si próprio e dos mundos esféricos
onde são contidas as esferas em movimento.
Neste redemoinho, fui buscar água ao poço para encher a jarra da prosperidade,
mas tinha tanta sede, que quando cheguei... já a tinha bebido. 

domingo, 2 de outubro de 2011

O primeiro átomo


Quando se quebrou a semente que deu início à criação?
Para que lado foste tu, átomo, se o espaço ainda não tinha direcção?
Feriste a eternidade, e de uma gota de sangue criaste o tempo
Golpe no meu seio porque agora sofro saudades tuas e não aguento
Nascemos da mesma mãe e queria estar ao teu lado vagabundo irmão
Levas tu a boa nova, porém pró pão sou eu que estendendo a mão

Por vezes, olho para o céu e procuro-te em vão
Foges do espaço, pois sabes que ele é prisão
Mas eu aqui fico com as mãos serradas nas grades
A única saída, é rasgar o peito e enche-lo de verdades
Mas elas são com flores colhidas que murcham
E na sombra do meu ser sei que não adianta ser bruxo  

Não leves a mal se aqui te rogo um pouco de ternura
Procuro-te no véu das trevas onde rasgas uma abertura
Infinito que me dá graça dum sentimento que não consigo medir
Início da aventura da alma do mundo que aprende a se despir
E, enquanto me vejo envergonhado por vestir o trajo da luz,
Descubro que o “eu” presente na matéria em opacidade me reduz 

sábado, 3 de setembro de 2011

De onde vens, ó vento!


Ondulante nas ondas do mar
Entre o deleite e o sofrimento
Vens do passado para o presente
Com a alma dos antigos a chorar

O teu sopro é uma eterna recordação
Na carícia do efémero desejo
Da pele que sonha de um beijo
Quando o instinto de possuir é ambição

No vale extrais a quinta-essência
De cada flor que liberta o seu perfumo
Como um presente da vida moribunda
Na hora que passa sem resistência

Convide a tua alma nua
O despir da alma minha
E do nosso contacto vinha
A minha arte a ser tua

O teu sopro que traz a vida
É o mesmo que a leva
Por caminhos traçados na terra
Em pegadas de cinza ardida

No oceano da tua memória
Se funde a memória dos seres
Assim se vão os amantes prazeres
Para os braços da tua glória

És conhecido pelo teu efeito
Nem a ti próprio te mostras
As causas infinitas são outras
E delas está o mundo repleto

domingo, 3 de julho de 2011

Bem te quero e não te encontro

Abro as portas da minha alma e entras sem eu te ver

Fecho o coração e te prendo sem saber

Vives dentro de mi quanto te procuro lá fora.

Sempre que te alcanço desvaneces e apareces
no intemporal espaço anterior à minha busca.

Quanto mais me esforço para escutar menos te oiço.

Nas minhas sombrias noites medito sobre o fino espelhos do lago

na esperanças de encontrar uma pérola de lua reluzir no teu olhar.

Quando por ventura abres os olhos para me ver, sou o teu feitiço

e cego de tanta luz me perco no insaciável fogo da paixão.

Pressentindo a tua presencia por toda a parte

não sei por onde orientar o meu passo.

Vivo num contínuo sentimento de falhar o encontro.

Como posso eu marcar hora se não existe espaço entre nós?

Do mudo mundo da arte, vem-me as tuas ondas trazer estas linhas

e depositas na minha sufocante alma um agreste sentido de eu.

Tudo fazes sem te mexer, quando alimentas o orgulho do ser

que se esquece prontamente que sem ti não pode viver.

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...