segunda-feira, 4 de março de 2013

Também conheço a dor

Entre o que medito e a vida que vivo
Há como uma mentira que eu não digo
Ela envolve toda a realidade do presente
E se alimenta do lixo do meu pensamento.
Que é ”ser feliz”? Pergunto ao espelho,
E o reflexo diz “há dor no mundo da gente vejo”.
Eu sou dessa gente que queria amor,
Mas sobre ele se sobrepõe o suor.
Trabalho para esquecer o sofrimento
Nasço, cresço, moro de isolamento.
Que vem do amor? Senão a dor.
Vulnerável é quem não sabe impor. 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

A lida da vida

A emoção que abrasa o meu coração
lembra-me que o corpo é um punho de cinza
e que viver é espalha-la pelo vento.
Passei o dia a lidar com matéria
sem tirar o espírito do éter.
O gesto feito com intenção
produz no espírito uma reação,
que esconde, no fruto que dá,
a semente de onde nasce o ato. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Que valores?

A opulência da riqueza?
Que miserável ilusão!
Disse o pobre na alteza
De quem pensa ter razão

Seja o cofre da ideia
Ou o cofre do cifrão
A mão que se encontra cheia
Não se abre pró irmão

O sentimento imaturo
Que não quer arroz
Vive na escravatura
E levanta a voz

Os olhos cegos postos
Naquilo que se desfaz
Não quer pagar impostos
Mas Viver não é capaz

sábado, 1 de dezembro de 2012

A meditação

A meditação é poesia sem tema
Um puro sentimento nascido do vácuo
Que se dispersa num mundo sem cena
Longe da definição que nos torna gago

Ela é a entrega de quem deixa fazer
Num movimento de potente fluidez
Onde a vida é o facto a acontecer
Que liberta o ser da avidez

Não há meditação sem coração
Nem consciência sem subconsciente
Sem núcleo para quê realização
Todo o elemento é instrumento

A existência faz, mas não realiza
O visível e o invisível, de todas as coisas
São as margens da ponte que eterniza
O gesto e o pensamento na substância da causa

Que realidade usa o meu ser para criar?
Sei que sou instrumento, mas na mão de quem?
Sondo o enigma com a capacidade de sonhar
Mas não será infantil imaginar que é alguém?

A consciência que é espaço aberto sobre a origem
Usa a nave do mental para alcançar o transcendental
E, quando emerge no eterno não dito, ela cinge
A verdade intemporal que faz da realização o ponto final 

domingo, 4 de novembro de 2012

Ecos de um ser

Não! Não estou liberto do sofrimento, nem das dores, e se ainda me sinto iluminado é pela pequena chama que incansavelmente se consume na mágoa do meu peito. Na claridade desta penumbra percebo a rosa da vida projetada no fundo da minha carne, e, bem que sensível as caricias das suas pétalas, sinto-me preso pelos seus espinhos.
Pela força do desespero, por vezes, surpreendo-me a pensar aos que nunca chegaram a conhecer a alta exaltação de quem se uniu ao sol, pois os olhos ao fixarem o chão, não perdem o caminho.
É hora de reconsiderar a visão que tenho da espiritualidade!
Apesar de constatar que é ela que predomina na minha mente “vagabunda” e nos meus atos “distantes”, sinto, que por detrás da luz da minha boa consciência, se estende a vasta sombra do ego. Que força nos leva a rasgarmo-nos ao meio, fazendo do nosso ser o agente separador do espírito e da matéria, as duas faces da grande unidade.


domingo, 7 de outubro de 2012

A liberdade da poesia

Com as grades da rima e do verso
Assim mesmo a poesia é mais livre
Do que a filosofia e o seu texto
Em que a verdade formulada agride.

Ela não receia a mentira,
Sabe que a verdade também se inventa
No ego de quem não toca a lira
E carrega como formiga a ideia da semente.

Tenho em mim as duas vertentes
E o jogo entre o sol e a sombra se inverte
No espaço e no tempo, os regentes
Da ideia e do sentimento que me aperta.

domingo, 9 de setembro de 2012

Pensamento


Seja a mente transparente
Quero ver de onde nasce o pensamento.
Parece vir do fundo da alma e trazer consigo um sentimento,
Única prenda que se pode oferece ao firmamento.
Ele deixa na folha branca as suas pegadas –  
Fotografias do passado em cores deslavadas.
Emerge de um mundo onde não há desgraças,
Onde a vida semeia flores e as colhes no seu regaço.
O caminho que percorre o meu pensamento
Atravessará os vales e montes do impermanente.  
Enquanto o pensamento for natural como o campo
Ficarei feliz e tudo me será dado sem eu pedir tanto,
Mas a moral é como um câncer que nos suga o juízo
Nascido da cidade onde o medo das leis é nosso inimigo.
Pensar sobre o pensamento é virar um espelho para outro
E ver a sucessão infinita das imagens perderem-se num ponto.
Pensar pode ser vício e o pensamento o seu sustento,
Refreá-lo é por a ferve o caldeirão do condicionamento.

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...