terça-feira, 1 de março de 2011

Acredito que não acredito

Temos todos uns lápis no coração pronto para gravar o mistério da vida

Em cada passo, o nosso coração recebe mais um raio desta luz que dá vida ao sol

A mão da consciência tem que ser muito leve, para não perturbar as sensíveis pétalas frescamente abertas pelo desabrochar sem fim desta rosa que se eleva no jardim onde se cultiva o coração.

Se, por acaso, os contornos da vida se perdem, não é por que deixam de existir, mas sim por serem cobertos de tantas pétalas que o sopro da vida desfolhou.

Por me sentir homem:

não acredito num oceano sem ondas,

não acredito na carícia do vento sem temporal,

no canto das folhas das árvores sem o sopro que um dia as levará,

não acredito neste barro que me deu forma, sem aceitar que um dia, é nele que o meu corpo se dissolverá.

Ainda que os meus pés procurem o caminho perdido, não consigo desenraizar a vida das nossas dores.

Mais ainda do que o mistério da vida é o mistério da morte, do sofrimento, do ódio e da violência.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

És

A mais bela poesia é aquela que está para ser escrita

É uma página branca cuja lápis não consegue escurecer

É um fogo de palavras na chama do coração

É um pedaço de vazio no oceano do nada

É o fim da busca antes de pensar procurar

É aquela que brilha dentro dos olhos do cego e que canta nos ouvidos do surdo

A mais bela poesia veste-se da mais fina luz do amor para esconder a sua nudez

sábado, 1 de janeiro de 2011

Tudo e nada?

Se tudo explica a matemática,
Que me diga o que é o zero.
Fechar o círculo é um erro,
No termo duma visão poética.

Ser tudo, é desagregar-me no nada,
Agarrara-me ao eu é distanciar-me do outro,
Desamarrar-me de mim é afastar-me do porto.
Ser tudo, não é maior do que ser nada.

Escrever isto é prova que existo
Em existência que dá sem saber como.
Vivo num tempo em que me suponho,
Mas daqui pouco serei alma do xisto.

Da irrequieta língua, chamei o mar.
Mas que nome se daria a ele próprio?
Vis palavras que me prendem no rodopio
De me sentir farto de tanto ignorar.

Ser o que somes, toda gente é;
Uns são avarentos, outros bondosos,
Que seja seixo ou estátua de bronze,
Inconsciente é aquele que não vê.

Vivo para transgredir livremente as leis da razão,
Quebro constantemente o fio puxado pela agulha,
E do fogo da revolta mando no tear uma fagulha.
Não quero malhas apertadas nas grades da minha prisão

domingo, 5 de dezembro de 2010

A espera

A espera tem a foice da morte na mão
Corta sem piedade, a fruta que não chega a madura
Isola do mundo a alma que pasma de se ver nua
Rouba o tesouro que nos promete a razão

Move o pêndulo no peito, sem saber que horas são
Sulca a testa do adulto e regozija a criança
Aduba a imaginação e seca a lembrança
Agita as águas cruzadas, onde se afoga a respiração

Quem vive a arte, nela, chama a intuição.
No vertigem da alma, quando o prazer almeja,
Vem como um fio de água, que floresce o desejo,
E as sementes do futuro, caiem no chão

Ela é o divino oscilar da anca, que leva o cântaro
E promete saciar o espírito, da sede e do feitiço.
Assim, mesmo que a espera não seja nada de isso,
Deixar de esperar, é rejeitar da vida o seu encanto

domingo, 31 de outubro de 2010

Olhos fechados num coração aberto

Fecha os olhos, e vê o estremecer da vida nas pétalas da existência.
Deixa-os cobertos, neste mundo aberto, em certezas que nada tem fim.
Descai a véu da alma sobre os olhos da paz, no filtrar da penumbra do viver.
E quando elevares o coração, baixa os olhos para o feliz encontro do amor e do amante.
Lembre-te as vezes que fechastes os olhos para acordar do sonho da mentira,
e com os olhos reluzentes de ternura, bebeste o cálix da alegria no repouso do coração.
No conchego das pálpebras, protege o teu brilhante olhar embriagado de amor.
Infinito, é o espaço que encontras por detrás do teu cismar, e infinita é a tua visão.
É cego o teu olhar amante, não por que vê tudo escuro, mas porque vê que tudo é amor.
Inclina a alma, antes de abrir os olhos, para que a alma do mundo te possa envolver.
A luz do espírito iluminara o que vêm os olhos da razão;
Sempre que actuares pela alma e abrires o coração.

sábado, 2 de outubro de 2010

Filhotes

A minha carne, sorrindo, fica à espera do filósofo para que venha provar que estes filhos não lhe pertencem.
Reconheço o meu sangue quando ferve nas veias da impaciência e da brincadeira.
São um espelho quebrado que reflicta a luz das mil facetas do meu passado.
São a incorporação dos meus sonhos no abraço dum novo futuro.
São o sobressalto de quem acorda da ilusão que tinha da “educação”.
São a suavidade, leveza e pureza do anjo que transmite as rudes e imparciais ensinamentos da vida.
Em vós palpita um:
 Coração que ainda não conhece o aperto da armadura do guerreiro.
 Coração que brilha longe das cicatrizes e golpes do combate à sobrevivência.
 Coração delicado, como as mais tenras pétalas das flores do jardim do meu esquecimento.
 Coração de um universo que se expande, se dissolve e se recria a cada momento.
 Coração tão ínfimo mas tão profundo que atrai a luz para melhor irradiar o seu próprio mundo.
Filhotes, à espera de ser para vós um amigo, deixam-me por um pouco, me sentir... pai.

sábado, 28 de agosto de 2010

Do rebanho ao pastor

Sou parte do rebanho, e sigo, cego, o pastor
Ele leva-me para ali, e como as pegadas do seu destino
Quando apita, respondo bramindo no mesmo clamor
Cabeça pesada e olhos fitos na terra, me afundo num remoinho

Apetece-me ser chibo e marrar o meu caminho,
Mas, ele diz-me que, arisco de me perder em áridos desertos
Marro nas dúvidas, e bebo as suas verdades, caladinho
Sou o relato da imagem, que ele pintou nos meus desejos secretos.

Adormeci um dia, e sonhei ser pastor.
Puxava um gado, na cegueira de me crer livre.
No abrir do passo, fugia do meu torpor;
Tinha no umbigo, palavras digeridas dum livro

Demostrava um saber, que nunca tinha aprendido.
O orgulho ensinava-me a fingir a humildade;
Para me fazer respeitar, falava de caridade,
Mas o gado comia da terra, e eu comia do gado

Quando acordei, vim que o espírito pode levar à mentira
Que me vá pelas pegadas dos outros ou pelas minhas
Encontro no rasto da vida, a memória repentina
De que, nem eu nem o outro, mas só o tudo ou o nada é que pode libertar

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...