quarta-feira, 3 de março de 2010

Amigos e alunos

Como não poderia eu agradecer da vossa confiança?
No meu papel de amigo, desculpem as minhas faltas de atenção.
No meu papel de canal, perdoem os meus delírios.
No meu papel de estrangeiro, desculpem se me sinto demasiado Português.
E se, no meu papel de propagador de liberdade, os meus pés se prendem nas redes do tempo, é para reforçar as minhas pernas à espera da hora em que poderemos caminhar juntos sobre as instáveis pedras do caminho do amor.
Como nos muros da cidade, tantos papeis colados sobre os nossos rostos. Será que um dia poderemos nos ver tal como somos?

domingo, 31 de janeiro de 2010

A paz

A paz nasce no coração
E acaba na mão
Só tem sentido
Quando ajuda o irmão

Rebenta a semente
À procura de luz
E incansavelmente
O sol seduz

Só se vive a paz
Quando há encontro na cruz
No centro onde jaz
Desejo e amor que nos conduz

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Criar

A revolta é o fermento da arte
Ela atiça o desejo no ventre
Não há criação sem virilidade
A satisfação só se encontra
Quando já não há dualidade

Assim se despe o poeta
Vive o sentir do contacto
A sua alma é um farrapo
Rasgado pela mão do vento
No leito da linguagem do campo

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

A alma do poeta

Quando o poeta dá um passo, imóvel fica o mundo ao vê-lo passar
Quando para o poeta, canta e vibra a natureza para acolher a sua meditação
Quando ele fecha os olhos, tudo se apressa para fluir dentro dele e ocupar o íntimo espaço do seu coração
Quando volta as abrir os olhos, entra a luz com tanta força que projecta a sua alma para fora.
É por que tudo fala que se cala o poeta, e quando ele fala, é para ensinar a música do silêncio
Por não conhecer a mentira, ele ri e chora, e por isso, sabe convidar a alegria sem rejeitar a triste hora.
Quando nos parece que ele pensa, em verdade ele dispensa, porque sabe que o tempo dirige o tormento do vento.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Num só momento da vida humana

Numa divina graça, o camponês espalha o estrume na terra
e é abençoado na testa por uma gota de orvalho nascida da serra.
No culto, o senhor padre levanta as lisas mãos para o céu
e no banco, adormece o fiel como se rasga o véu.
Do forno, o padeiro tira o pão quente
e no quarto, a esposa recebe o amante.
Pasta tranquilo o rebanho no campo
e apita o desespero no engarrafamento.
Luta na raiva, quem traz a dor
e dorme em paz, quem fez amor.

domingo, 23 de agosto de 2009

A existência da não existência

Mal nasce a flor que já sobe a seiva da morte
Brilha a vida por cima de quem não é
Poder ser eterno, é agarrar a mão da sorte
Por que o que nos é dado, nem de quem o dá é

Quem já mais fez um passo que não o leve ao passado?
Mais alargas o passo para a frente
Mais por trás se encontra o presente
Ser testemunha da vida, é ficar por detrás do sonhado

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Amigos

Se não sou mais do que uma mão que procura reter um pouco de areia quente enquanto escapa a vida pelos meus dedos.
Se o destino destes grãos de vida é o regresso à praia cósmica, enquanto ela própria, se dissolve nas ondas do oceano da eternidade.
Se, aquilo que o meu rosto percebe não é mais do esta finíssima gota de orvalho, que ao nascer sobre o oceano a brisa levantou.
Meus amigos, então, porque estou eu aqui sentado?
Será uma resposta ao prazer, na sua irresistível necessidade de procriar?
Um desafio para minha nau, perdida nas ondas do impermanente?
Ou a fútil tentativa de escapar às redes do tempo, projectando o eco da minha vós, nas memórias do vento.

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...