sexta-feira, 17 de abril de 2009

Amigos

Se não sou mais do que uma mão que procura reter um pouco de areia quente enquanto escapa a vida pelos meus dedos.
Se o destino destes grãos de vida é o regresso à praia cósmica, enquanto ela própria, se dissolve nas ondas do oceano da eternidade.
Se, aquilo que o meu rosto percebe não é mais do esta finíssima gota de orvalho, que ao nascer sobre o oceano a brisa levantou.
Meus amigos, então, porque estou eu aqui sentado?
Será uma resposta ao prazer, na sua irresistível necessidade de procriar?
Um desafio para minha nau, perdida nas ondas do impermanente?
Ou a fútil tentativa de escapar às redes do tempo, projectando o eco da minha vós, nas memórias do vento.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

A razão

Dragão que vomita dados sobre o gelo da lógica
Ordenas, computes e comparas
entre as margens do rio e o mar.
Es tão certo de ser sábio, que ignoras ser idiota

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Tempo

Será que vale a pena lutar se a espada zoa no vento?
Quem ouve as súplicas de quem chora no isolamento?
Tudo nos dás, mas nada nos pertence
Tantas riquezas espalhadas pelo vento
Lembranças de quem tudo perdeu
Projectos de quem nada entendeu

sábado, 1 de novembro de 2008

Comunhão

A linguagem do espírito não se comunica como as ideias de um livro ou pela sonoridade de umas belas palavras. Para que o espírito possa vir a ser aflorado pelo coração dos seres, ele tem que despir-se do intenso esplendor da sua luz; tem que vestir a áspera roupa da terra antes de aproximar-se de quem ainda vive à sombra das dúvidas; tem que usar a coroa de espinho da consciência limitada e oferecer as suas costas à brusca mão da ignorância que engorda no prazer do flagelo.
Guiado por um profundo sentimento de compaixão,
o espírito reúne todas as suas forças, e, pés nus,
lentamente, arroja sobre as pedras do caminho a sua cruz
- projecção da sua ligação ao absoluto e que lhe fere o peito
no sitio onde se purifica o fogo que consume a ganância do homem.
Por fim, aqui está ele crucificado, o peito exposto a todos
E, pelo sacrifício do seu eu, entrega a mais elevada da sabedoria:
A liberdade absoluta existe, mesmo dentro das realidades mais obscuras do mundo terrestre.

domingo, 6 de julho de 2008

A noite

Nas noites do meu quintal,
Despertam pequenos roedores que se entregam ao sabor das minhas mais tenras emoções.
É na morte do dia que nasce a vida da noite.
E a vida da noite dorme nas pregas do fato do meu dia.
É ela que afunda as rugas do rosto do dia.
Os mistérios da noite escondem-se do ardor do sol na sombra dos galhos que estalam debaixo dos pés.
A sombra do dia revela-se sempre por trás de quem aceita virar-se ao sol.
Vejo-a passar no fundo do reflexo do meu olhar.
E a luz da sua prata lua, ilumina o vertente Norte do meu pensamento.
É noite! E do meu coração se vai o canto daquela minha outra vida.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Um só passo fora do tempo

Mesmo que as minhas mãos deixassem de arrancar as ervas daninhas;
chegaria eu um dia à caricia da alma do vento?
Ainda que vigiasse as minhas palavras e moderasse a minha alimentação;
chegariam um dia os meus lábios à suavidade do beijo da luz do sol?
E se tencionasse retirar-me num mosteiro e que me preenchesse de orações,
chegaria eu um dia à pureza duma simples gota de orvalho?
Mesmo se me viesse a recordação de cada um dos meus passos,
chegaria eu um dia a polir o meu corpo e alcançar a transparência do ínfimo grão de areia?
Deixem-me arder de paixão, por que eu sei que este fogo que me ilumina é o mesmo que consome a criação.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

A sinceridade

A sinceridade é ousar quebrar o reflexo ilusório da ideia que se tem de si próprio.
É expor o fruto do conhecimento a quem vive na fome.
É a capacidade de irradiar para as mais altas esferas da alma um pouco da dor de se sentir humano.
É não despir-se das imperfeições na hora do encontro.
A sinceridade pode não ser a verdade mas não deixa de ser o oposto da mentira.

Na Hungria

Quando o olhar aberto    Pousa sobre o mundo fechado    Do homem ....daqui de perto    Vê-o sobreviver ...debaixo dum telhado    T...